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Você vai morrer coadjuvante

Foto do escritor: Alzira Bosaipo, Glednna Fernanda e Carol Resende
Alzira Bosaipo, Glednna Fernanda e Carol Resende
16 de set.
6 min de leitura

Prólogo

Voz em off na tela preta. (A fala em off é entrecortada com a imagem de uma faca cortando algo):

“Aconteceu ontem, o enterro vai ser no fim da tarde mas não vai ter velório, só foi liberado para família”.


Parte 1 - Madalena


A imagem da faca que aparece no prólogo amplia e mostra Madalena cortando ingredientes para fazer um drink; ao mesmo tempo, aparece Madalena entrando no quadro do fundo preto, sentando em uma cadeira e encarando a câmera. De volta à imagem da cozinha, Madalena está na sua cozinha seguindo uma receita de um drink em um vídeo de YouTube, onde Gabriela ensina a fazer Piña Colada, Margarita. Ao fim do vídeo, Gabriela está em uma piscina tomando o drink. Madalena fica sorrindo, admirando, toma sua piña colada e faz uma cara feia. Escutam-se ao fundo, notícias sobre a quantidade de mortes do coronavírus. Madalena pega seu celular e começa a escrever uma postagem em

homenagem à amiga. Ela narra ao mesmo tempo em que escreve:


Madalena

Valentina, querida companheira da infância!... Extinguira-se de repente, na véspera, essa doce criatura pálida, cuja vida frágil, sempre enferma. Tinha a figura emaciada de uma freira. Andava devagar, como arrastando dolorosamente os passos, sem rumo, sem objetivo. E eis enfim que morrera, discretamente, sem ruído, num sopro de ave cansada, que encolhe a cabeça sob a asa e expira docemente, sem incomodar ninguém com estardalhaços de uma agonia aflitiva e prolongada.


Ao fim do texto, Madalena volta a assistir aos vídeos de Gabriela, que agora está em uma festa dançando e fazendo selfies.


Volta a imagem de Madalena no quadro de fundo preto. Encarando a câmera, Madalena diz:


Madalena

Estou cansada, é claro, porque, a certa altura, a gente tem que estar cansada. De que estou

cansada, não sei: De nada me serviria sabê-lo, pois o cansaço fica na mesma. Uma vontade de sono no corpo, um desejo de não pensar na alma, E por cima de tudo uma transparência lúcida do entendimento retrospectivo... E a luxúria única de não ter já esperanças! Estou cansada, tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto, e há um certo prazer até no cansaço que isto me dá.


Parte 2 - Gabriela


Madalena entra no WhatsApp e manda um áudio para Gabriela:


Madalena

Gabriela você ficou sabendo o que aconteceu com a Valentina? Eu sinto o tempo todo uma sensação medrosa de arrepio, algo que agora se misturou ao sentimento de saudade. Sinto falta dela, me vejo nela, mais do que eu gostaria.


Gabriela

Amiga, pára com isso! São coisas totalmente diferentes! Valentina, na realidade, passara

gradualmente a ser um zero no lar, aquela sensibilidade doentia que a isolava, uma fraqueza de caráter que as contínuas moléstias iam sempre agravando. Madalena, você precisa entender que só fica mal mesmo quem já tava ruim, sabe? Que já iria de qualquer jeito. Eu,por exemplo, fiquei super bem.


Gabriela aparece sentada no quadro de fundo preto com o celular na mão fazendo um story de apresentação para seus seguidores:


Gabriela

Eu fico muito feliz de ver todos vocês aqui, querendo me acompanhar. Para quem chegou agora, saiba que aqui trabalhamos com alto astral e boas energias! Vivendo a vida! Quer ter mais energia, vitalidade e amor? Segue minha playlist de treino! E tem outra coisa, gente, não dá pra parar a vida! Vamos nos apegar às coisas boas! Porque energia boa traz energia boa!Confiem em mim que tudo vai dar certo! É só vibrar na frequência certa!


Após a gravação dos Stories, Gabriela encara a câmera e se apresenta:


Gabriela

Qual era a utilidade de não deixá-la lá onde ela ficaria, qual era a utilidade se não havia

chance de nunca tê-la visto aqui e mostrar que ela era bonita e certa a forma de mostrá-la. A

lição é ensinar que ela se mostra assim, que ela se mostra assim e que nada mais, que não há nada a mais, que não há mais que se fazer com ela e assim tanto quanto existe.


Após a apresentação de Gabriela, ela volta a falar com Madalena pelo celular:


Gabriela

É assim que as coisas são, amiga! Você me conhece, não nasci para ficar isolada, cada um tem que ser protagonista da sua própria vida! Ficar neurótica também não ajuda. Vamos deixar de viver por causa de todo probleminha que aparece? Ah,só um segundo, querida.(para outra pessoa) Tenho que ir amiga, chegou minha vez aqui no salão. Depois quero te contar sobre meu instrutor de crossfit.

Aqui é protagonista meu bem!


Madalena deixa o telefone de lado e levanta os olhos em direção ao sofá onde vê Valentina.


Parte 3 - Valentina


Clima meio onírico, fantasioso e teatral. Valentina apresenta um olhar triste.


Valentina

Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada.

Mas em mim havia todos os sonhos do mundo...


Madalena

Valentina me evoca agora esse tristonho tipo de mulher, que fora despreocupada na meninice, poeticamente sentimental na adolescência e, enfim, abatida nos últimos tempos.


Madalena está agora no quadro de fundo preto, sua fala surge como uma epifania nervosa:


Madalena

Só trinta e seis — a minha própria idade, nascemos no mesmo ano. Uma vida cheia de dias

monótonos, sempre iguais, ao fundo dessa chácara sombria de arvoredos, porejando umidade nas madeiras apodrecidas pelas chuvas, esquecendo todos os risos da vida por inércia de hábitos, empurrados pouco a pouco, quase sem sentir, para o isolamento próprio dos que terminaram o seu papel no mundo e se resvalaram até cair na morte, sem reagir e sem viver — no verdadeiro sentido desta palavra tão ampla...


(um foco nos olhos de Madalena que se assustam ao encontrar um pensamento cruel:


Valentina... e eu!


Valentina fala como se refletindo sobre a própria vida:


Valentina

Falhei em tudo.

Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.

Cumpri missão na existência sem saber salvaguardar a nota pessoal, que serve de arma de defesa, instinto de conservação,apenas passei pela segunda e melancólica fase da vida das mulheres.

Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas, nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?


Madalena e Valentina estão sentadas no sofá, falam sem olhar uma para outra:


Madalena

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?

Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!

E há tantas que pensam ser a mesma coisa que talvez não possa haver tantos!

O mundo é para quem nasce para o conquistar

E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.

Serei sempre a que não nasceu para isso?

Serei sempre só a que tinha qualidades?

Serei sempre a que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta?


Valentina

Aquela que tudo dera de si, encontrando ao cabo a ingratidão mais dura, o isolamento, o abandono, as acomodações e as transigências, que fui aceitando contra o meu interesse, por amor e por inércia.


Valentina vira-se e fala para Madalena:


Eu nem sei dizer qual era a minha comida preferida!

Até os meus gostos eram os gostos dos outros...


Valentina está no caixão. Enquanto Madalena analisa seu rosto pálido e rígido. Valentina fala em off:


Valentina

Sua boca é sua? Seus gostos são realmente seus?

Se pudesse, comeria chocolates, mas agora tudo deita para o chão, assim como deitei a vida.


(Valentina abre os olhos e fala para Madalena:)


Aproveita, você ainda está aqui.


Parte 4 - A lição


Madalena está sentada em um jardim, comendo chocolate enquanto assiste Gabriela em um vídeo fazendo exercícios e falando sobre a importância da dieta. Madalena sorri e come outro pedaço de chocolate. O volume do vídeo diminui e Madalena fala em off:


Madalena

Talvez devesse levar uma coroa de amores perfeitos ao túmulo, agradecer a lição.


Madalena fala ao telefone com Gabriela:


Gabriela

Depois não diga que não lhe avisei. Tanta coisa que você vai perder... Viajar quando se quer é afirmar o direito à vida própria! Como você pode não querer ir comigo?


Madalena

Eu estou feliz assim.


Gabriela

Que isso, o que aconteceu com você? Tudo por causa da Valentina, né? Você tá diferente, isso aí é obra fatal da defunta Valentina...


Madalena ri e desliga o telefone.


Epílogo


A fala de Madalena é entrecortada por imagens das outras mulheres:


Madalena

Nem mar revolto a quebrar as fronteiras rochosas, nem peixe assombrado pelo destino de ser caça, flutuando nas correntezas descritas e delimitadas. Sou céu negro em sua beleza que derrama em chuva e que queima em calor, eu não sou a fronteira do que diz apenas sim. Não! Eu não serei coadjuvante!


FIM

 
 
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