top of page

Amena

  • Foto do escritor: Nanda Fer Pimenta
    Nanda Fer Pimenta
  • há 5 dias
  • 3 min de leitura

O Nó na Garganta: Quem sou eu ao me olhar?

Na casa de Amena, o silêncio não era paz; era estratégia. Ela cresceu em um ambiente

onde ninguém falava o que sentia; as coisas eram resolvidas na base do "deixa pra lá" ou

do climão no almoço de domingo. A regra era simples: não incomode, não reclama e, pelo

amor de Deus, vamos evitar discussão.

Ela virou mestre em sorrir quando queria gritar e em dizer "tanto faz" quando, na verdade,

tinha uma preferência gigante por qualquer outra coisa. O resultado? Amena chegou aos

trinta com um doutorado em engolir sapos e um bloqueio total na hora de se posicionar.

O "Match" que vira Objeto

Quando ela baixou os aplicativos de relacionamento, a dinâmica ganhou um tom ainda mais

cruel. Amena percebeu um padrão que a destruía por dentro: ela nunca era a mulher

convidada para um jantar, para um cinema ou para um café à luz do dia.

> (Que desgramação!)

>

Os convites eram sempre: "Passo aí agora?", "Vamos pro motel?", ou encontros rápidos na

esquina, no portão, no escuro da rua. Ela era tratada como um segredo, algo a ser

consumido e descartado antes do sol nascer. Amena sentia na pele o peso: para o mundo,

ela era vista apenas como um "pedaço de carne" desejável, mas nunca como alguém para

se assumir um compromisso.

E o pior? Como ela foi criada para ser a "boazinha" que não questiona, ela aceitava. Ela

tinha medo de dizer: "Eu quero ser levada para sair, eu quero ser valorizada". Achava que,

se reclamasse, seria vista como "a raivosa" ou "a mulher difícil", perdendo o único afeto que

recebia.

> (Migalhas, né? Se poupe, minha filha, tu é gostosa e inteligente!)

>

O Elogio que Sufoca

O feedback desses caras era sempre o mesmo:

— Nossa, Amena, você é muito tranquila, né? Boa demais, não enche o saco!

— Gosto de você porque você é "parceira", não faz drama.

Essas frases davam um nó no estômago dela. Ser chamada de "tranquila" e "boa demais"

era a prova de que ela estava sendo o tapete perfeito. Eles amavam a "falta de drama"

porque isso significava que eles podiam usá-la e ela ia seguir sorrindo. Aquela "bondade"

era, na verdade, o medo desesperado de ser rejeitada.

Ela percebia, com uma angústia profunda, que ninguém se apaixonava por ela — ou seria o

reflexo dos diachos desses amores platônicos europeus que são enfiados até hoje goela

abaixo das crianças e adolescentes? — porque ela não se deixava aparecer; ela era

apenas o reflexo do fetiche e da conveniência deles.

O pé na porta: chute o balde com força

Numa terça-feira qualquer, o celular vibra.

Mãe: "Amena, domingo seu irmão volta de Minas. Já avisei que você traz a sobremesa.

Esquece o que ele fez, é seu irmão, sua família."

O controle vinha de todos os lados. Em casa, tinha que ser a filha invisível. Na rua, era a

carne desejada. Em lugar nenhum ela era a Amena que queria um abraço, um jantar e o

direito de dizer "não".

Não.

Não.


Não...

Nesse momento, veio uma notificação de um cara do app com quem ela estava

conversando:

— "Tô passando aí perto. Dá um pulo aqui fora pra gente se pegar rapidinho no carro?"

Ela olhou para aquela mensagem e depois para o pedido da mãe. A sensação era de que

estava sendo rasgada. Ela não queria "dar um pulo lá fora" como se fosse um bicho. Queria

uma mesa, uma conversa, um olhar que a visse inteira, não só os seus contornos.

Sala Vermelha da Bala Rosa toca no seu fone...

Amena não mudou o mundo naquele dia, mas mudou o seu próprio eixo. Ela ignorou a

mensagem da mãe. Depois, respirou fundo e respondeu ao cara do app:

— "Não, eu não vou 'dar um pulo' aí, seu fudi..."

Ela enviou e jogou o celular na cama, com as mãos tremendo. O cara nem visualizou, ou

talvez tenha a bloqueado — o que, para a antiga Amena, seria o fim do mundo. Mas para

essa nova Amena, foi um alívio.

Ela entendeu que a sua "tranquilidade" era o que permitia que o racismo e o desrespeito

fizessem morada na vida dela. Ao dizer aquele primeiro "não", ela começou a desenhar

seus limites.

 
 
Rodapé.png
bottom of page