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Sangue no Olho

  • Foto do escritor: Senhoras Verdes
    Senhoras Verdes
  • há 7 dias
  • 2 min de leitura

A primeira vez que vi um parto eu estava estagiando como técnica de

enfermagem em Águas Lindas-GO, em 2007. Uma mulher, moradora

das calçadas de lá, andarilha de mundos, chegou literalmente parindo

no corredor do hospital. Rolou um desespero da equipe (hoje entendo

que sem a menor necessidade), o nenê nasceu e imediatamente o

enfermeiro cortou o cordão (que hoje entendo que

sem necessidade, o bebê tava ótimo) e o sangue que ainda pulsava lá,

espirrou e uma gota caiu dentro do meu olho. Sim, dentro do meu olho

e eu precisei tomar vários remédios, até que os exames de sangue da

mãe parida ficassem prontos! Eu lembro que o medo que eu senti

tinha calor e um som de coragem. Eu tinha visto uma vida nascer.

Parto e nascimento: alguém nasceu e alguém pariu. Depois desse, eu vi

mais alguns no estágio e a cada um deles, eu vivia a adrenalina do

sangue quente entrando no meu olho. Eu fui contaminada pela fagulha

geradora de força que se apresenta quando o tempo para. Quando

um neném nasce, o tempo escorrega. Um broto respira, a terra toda

reorganiza-se. A realidade cruel dos corredores deve ter lá seus

guardiões. Deve ser o povo da rua. O povo das encruzilhadas, que

derrama sangue todo dia, em lamento e louvor, rogando pelo mínimo de

glória para sobreviver. Parece que nunca mais esse sangue saiu de

mim.


Sangue no olho. Uma espécie de amuleto, pra tudo um quanto que

exige peito pra correr em campo aberto. Antes de Angelo, meu filho,

desmamar (2015), eu sonhei com uma cobra coral toda enroladinha no

meio da sala. Na medida em que ela se desenrolava devagar, ia se

transformando nele e ele saia correndo pro quintal, onde tinha os meus

remédios na terra. As ervas que plantei.

Era hora do ouro líquido retornar pra mim. Meu sangue em forma

de leite se reorganizar para me nutrir e me dar sangue no olho. Uma

passagem. Como tantas...quem sangra tem a oportunidade de viver.


A mesma cobra aparece em outras passagens, que só com sangue no

olho eu passaria. Até tatuei ela na canela. Acho que fui batizada neste

dia do parto.


Eu não tive mais medo de sangrar, nem de morrer. Já tive. Pensei

em escrever uma carta pros meus, mas lembrei que já nos contami-

namos de suor, amor, lágrima e sal. Ocitocina e presença. Sangue é

oferenda para brotar vida.

 
 
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