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O cômodo de passagem (ou o incômodo da passagem)

  • Foto do escritor: Clarice Casoli
    Clarice Casoli
  • 21 de ago.
  • 5 min de leitura

Naquele dia acordei num quarto muito amplo, mas sem móveis, deitada no chão, um feixe de luz sobre mim e somente até um raio de poucos metros eu podia enxergar. Era um lugar desconhecido e ao mesmo tempo familiar. Não, não, certamente não era desconfortável, mas também havia uma sensação de medo em estar ali. Era como se eu estivesse onde deveria, sem saber onde era.


Levantei usando roupa que eu não conhecia. Um vestido incrível, caimento perfeito, como feito sob medida. Tecido nobre. Tamanho correto, cor adequada. A roupa ideal.


Havia um bolso frontal, na altura do ventre. Busquei com as mãos, havia algo. Algo novo, porém conhecido. Algo pelo qual me afeiçoei imediatamente, mas precisava desvendar. Cuidei com zelo, não podia deixar desprotegido, era muito valioso. De volta no bolso, bem acomodado, bem seguro. A mão visitava frequentemente para ter certeza que estava ali, que não havia perdido ou colocado em risco.


De pé, com uma das mãos no bolso, olhei em volta, em busca de qualquer coisa familiar. Havia vozes, risos, conversas, mas pareciam distantes, lá fora. Alguns passos pra lá e pra cá… apenas olhando, verificando, conhecendo.


Uma janela com muita claridade entrando… era de onde vinha a luz que clareava o lugar. Mas ofuscava, não permitia que eu olhasse lá fora. Havia um banco acolchoado logo abaixo da janela, parecia confortável. Mas a luz doía, não quis me sentar para olhar. Ao lado, uma porta. Eu não quis abrir naquele momento. Não parecia ser o caminho, afinal, não era uma porta que eu conhecia, nem podia ver o que havia lá fora.


Havia outra porta, de um lado mais escuro. Aquela eu tinha certeza de conhecer. E era desconfortável olhar para ela, porque eu não queria entrar, mas era conhecida e aconchegante. Era assunto encerrado, mas estava ali, para me lembrar de algo. Percebi que o desconforto era justamente por conhecer e não poder mais entrar. Repentinamente, eu soube que fui eu mesma quem trancou e jogou a chave fora. E senti um pouco de vontade de abrir só mais uma vez, sentir como era estar lá daquele lado mais uma vez. Saber novamente sobre mim o “quem? Onde? Como? E por que?”. A ilusão das certezas. Mas não era mais possível.


Outros passos ao redor, investigando, sempre cuidando e protegendo o que estava no bolso. Era importante estar sempre ciente da sua segurança.


Percebi que o que havia de importante mesmo ali comigo estava no bolso. Era o que dava sentido para a existência naquele lugar, naquele momento. Porque ao redor não havia nada mais: pessoas, móveis, cores, coisas…


Estava incrivelmente fixada no presente de cada passo que dava e, a cada passo, do bolso bem protegido. Aos poucos, fui me apropriando de cada centímetro do lugar, até onde eu era capaz de explorar e me apoderar, integrando minha existência àquela vestimenta e ao que eu carregava comigo. Parecia pouco, mas era tudo. Tudo o que eu tinha. Tudo o que eu era, ou passei a ser. Parecia pouco, mas descobri que era muito.


O que eu passei a ser era difícil de entender. Tentava lembrar das experiências, das texturas, dos cheiros, das temperaturas, para ter certeza que era eu e não havia sido trocada em algum momento estranho. Mas era tudo de tempos que pareciam remotos, pareciam ser em outra vida. Detalhes trancados para fora. Será que eu ainda sabia viver?


Bateu um desespero manso, silencioso. Será que eu tinha que sair dali? Como? Ali era seguro, como proteger meu tesouro em outro lugar? Eu já começava a saber tão bem como mantê-lo no bolso.


Andei em círculos por ali, não sei bem por quanto tempo. Eu não sabia como andar diferente ali. Tentei algumas vezes chegar até a janela, mas a luz ainda me incomodava. Então, eu olhava de longe, tentando entender como me aproximar. Senti medo, ansiedade, estava aprisionada numa vida que eu passei a conhecer, mas não reconhecia como minha.


Não, eu não devia mais ficar ali. Não podia. As dúvidas sobre o futuro começavam a me consumir. Eu não sabia o que viria, mas sabia que era preciso sair.


Num ímpeto de coragem, aproximei-me da janela e sentei no banco. Aceitando a dor da luz invadindo a minha vista, olhei para fora e, aos poucos, o clarão deu lugar à uma paisagem. Era um lindo jardim. Em volta, muitas plantas, ao centro, uma calçada em S, cores de arco-íris. Borboletas, flores, brisa, céu azul, dia ensolarado. Silêncio, apenas o som da natureza.


Era o que eu via numa distância que parecia ser de uns 20 metros à frente. Depois disso, mais clarão daquela luz intensa. Percebi que, se eu quisesse ver adiante, precisaria prosseguir. Seriam alguns passos de coragem: levantar, procurar a chave, abrir a porta, seguir pelo jardim desconhecido. Sem deixar de proteger o bolso…


Por ora, me pareceu suficiente permanecer sentada ali no banco. Por que sair? A curiosidade imediata havia sido sanada. Senti-me corajosa por ter ido até ali, me superado.


Com a mão no bolso, por mais algum tempo, contemplei a paisagem. Foi revigorante. Levantei, andei pelo quarto, dei umas voltas, retornei ao banco, enfim, incorporei aquele momento à minha rotina. Foi bom ter algo novo, senti que eu fazia parte daquela paisagem: talvez, olhando de lá pra cá, a paisagem de alguém seja um jardim com uma moça na janela (eu). Talvez alguém me enxergue e, talvez, eu exista novamente.


Pouco a pouco confiei no meu bolso e retirei a mão de lá por alguns instantes. Quando a mão retornava, era capaz de segurar melhor e, portanto, cuidar melhor daquele tesouro. E quando eu o retirava do bolso, a luz que vinha da janela o fazia brilhar ainda mais lindo.


E foi assim por um tempo. Sinto que aquele brilho  me salvou. A cena da janela se tornou conhecida e confortável. A luz não mais ardia tanto quanto antes e, assim, foi possível ver, pendurada num preguinho, na lateral da janela, uma chave. Só podia ser de uma fechadura. 


Àquela altura havia apenas uma ânsia por experimentar essa nova liberdade, apesar do medo que nunca mais se escondeu dentro de mim (sim, passou a fazer questão de existir, sem disfarces).


Levantei com calma, peguei a chave, olhei seu formato. Era pequena e bonita, acobreada. Olhei ao redor: o que antes me parecia um quarto amplo, agora eu percebia que era um corredor.


O tesouro no bolso, peguei e pendurei ao redor do pescoço. Era um brilho muito radiante para ficar guardado. Merecia brilhar mais ainda. E continuaria seguro, pertinho de mim.


Ouvi as vozes. Antes eram distantes, mas agora pareciam até amistosas. Uma música suave as acompanhava enquanto eu fazia um movimento rumo ao que era totalmente novo e que aos poucos eu desvendava.


Chave na fechadura. Olhei pela última vez através da janela e senti um grande alívio ao perceber que eu era capaz de me despedir daquela imagem. Destranquei a porta, abri. Senti frio, primeiro. Mas alguns raios de sol me aqueceram. Fui andando pela calçada, sentindo-me feliz e capaz de andar por ali.


No início, foi um andar solitário. Mas, enfim, encontrei as vozes (ou os donos das vozes). Algumas vozes que eu ouvia desde que acordei no quarto estavam lá, eu as reconhecia.


Pedi ajuda, falei com quem eu não conhecia. Juntei-me a um grupo de pessoas estranhas à minha vida e tive a sorte de encontrar afinidade em algumas delas. Percebi que passávamos por caminhos semelhantes.


Percebi que algumas coisas haviam passado de uma porta para a outra naquele corredor e adquirido nova luz do outro lado. Outras coisas ficaram mesmo para trás.


As vestes perfeitas foram se desgastando e meu bolso já não é útil agora. Pude me trocar algumas vezes e me surpreendi ao ver que reconheço logo o que me causará desconforto. E procuro não mais me demorar nesses trajes. Prefiro os que me caem bem.


Seguindo pelo caminho, por vezes eu tenho parado e olhado adiante. Não é possível ver onde chegarei. Eu carrego meu tesouro, cada vez mais valioso, e eu sei que um dia o verei transcender à minha proteção. E isso me faz forte para dar mais alguns passos nessa caminhada.


 
 
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