O Pulso da Mulher Plúrima
- Elena Arantes

- 21 de ago.
- 2 min de leitura
Houve um tempo em que o jornal estampou
Tudo aquilo que já se antevia.
Mas, enfim, foi preciso que uma voz solene profetizasse
Aquela verdade desnuda e lastimável, que antes só o vento ouvia.
Sim, talvez, eu soubesse
Mas eu teimava em não acreditar.
Sim, talvez, meu coração insistisse
Em maldizer que tal homem atroz não poderia lá habitar.
Agora, o peso da gravidade tomou o espaço concreto.
Foi só após o seco estampido,
Quando cravou-se na carne da parenta uma bala com todo o seu rangido.
Ainda sinto reverberar o som da carne dilacerada pelo aço.
Depois disseram-se que a mão do homem atroz
Costumava, há tempos, se levantar contra ti;
E com tanta repetição, que você já não ecoava sequer a sua voz;
Que você nem ao menos se lembrava da vida ao seu redor.
Pode ser que não houvesse força;
E que sucumbir ao medo
Fosse como um arremedo;
Uma prudência para se furtar do futuro e das desavenças.
Mas, eis que finalmente a roda da História parou de arquear-se!
E, em meio à turbulência, veio a tua rendição.
Agora, mulher, é reerguer-se;
Opondo-se à agressão como se esta fosse uma mera tradição.
Somos todos culpados quando uma mulher vive sob estilhaços;
Sob o peso da mão e da brutalidade feroz.
Mas, somos ainda mais responsáveis se, uma vez rompidos os velhos laços,
Não a amparamos de maneira igualmente audaz.
Na forma de versos tens o meu esteio, em busca do fim da violência do teu lar.
Que a minha palavra, que aqui se eleva, seque sua lágrima.
E que sua próxima atitude seja obstinada e não drástica:
Atreva-se a ser tudo aquilo que te faça pulsar,
Como uma mulher plúrima!
Escreva a História que ainda virá
Para que tua neta, que ainda nem nasceu,
Acredite nos ventos da mudança.
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