O Que Os Olhos Não Veem...
- Ana Beatriz Cabral

- 21 de ago.
- 3 min de leitura
Atualizado: há 6 dias
O olhar dele a queimar-me as costas. Não fechei a porta do banheiro. Deveria. Enrolada na toalha, frente ao espelho por onde o via deitado na cama, tentava prestar atenção no ato automático de me maquiar. No olhar dele, havia sempre aquela mais completa adoração, num misto de devoção e desejo. Olhos de Sampaku, cheguei a pensar, enquanto comíamos no restaurante de beira de estrada, no primeiro encontro.
Vieram outros, encontros, não olhos, mas nunca me acostumei à profundidade daquele olhar. Engraçado que me acostumei com todo o resto. Talvez a mesma cor escura que os tornavam belos também transparecia os tormentos, quase todos indizíveis e inomináveis, da besta fera que temos dentro. A dele era sempre por um triz que não saía arrebentando tudo. Ficava no olhar raivoso e magoado, muitas vezes estático, que descobri mais tarde ser uma característica da doença, quase não piscar. Quando isso acontecia, desviava meu próprio olhar e mudava de assunto. Ele percebia e fingia que se acalmava ou que acreditava em mim.
Preso ao corpo, imóveis, ele e a cama, só os olhos falavam e mexiam, me seguiam por todo o quarto, até onde me alcançavam e mesmo quando não me viam, me atormentavam, sentindo-os grudados em mim. E, mesmo nos poucos momentos em que parecia dormir, bastava um leve farfalhar da cortina e eles se abriam assustados, como que arrastados de outras e sombrias dimensões. Ele sempre se assustava quando acordava.
Eu não conseguia deixar de pensar que, nessas ocasiões, havia de se encontrar com seus tormentos e tinha a exata noção do que o esperava quando fechasse os olhos em definitivo. Não, não desejava nenhum castigo ou lançava maldição alguma. Já tinha tido o suficiente vivo mesmo. Experimentava o inferno há algum tempo. Não seria mais necessária qualquer amostra do que os deuses são capazes quando não gostam da gente.
E aquele olhar que alternava os dias entre a doçura de outros tempos e a desesperança do agora esvaziava meu próprio olhar. Eu não tinha mais força alguma para testemunhar o que ninguém deveria ver. Minha opacidade visual era percebida por ele, por todos, por qualquer um que chegasse perto de mim. Meu olhar cego de ver, minha insensibilidade calculada, disfarçada de empatia, era patética, pelo menos para mim. Para os outros, acho que disfarçava bem. Sempre disfarcei bem tudo o que sentia. Só ele sabia. Só ele me decodificava com aquele olhar de raios X de alma, da minha alma. Nunca consegui esconder nada dele. Com o tempo, desisti de qualquer fingimento. Quando ainda falava, dizia que preferia assim. Depois que emudeceu, sei bem que os olhos diziam coisa diferente.
Terminei de me maquiar e vesti a roupa devagar. Descobri com o tempo que ele se excitava mais quando eu colocava a roupa e menos quando tirava. Parecia que presenciava alguma transmutação, os olhos raivosos quase marejavam de súplica. Eu fingia que não percebia o desejo se instalando à simples visão de minhas mãos ajeitando a alça do sutiã, mas fazia sem pressa para que desfrutasse. Era um presente para ele, talvez o último.
Quando terminei, abri a porta do quarto para a cuidadora. Ela trazia as seringas preparadas numa bandeja. Enquanto ajustava a sonda, depois da higiene habitual, olhou para mim e ele ainda me olhava. Assenti com a cabeça, sem tirar os olhos dele e vi a hora de que ele e seus fantasmas finalmente puderam se encontrar.
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