Tempestade
- Daniela Andrade

- 21 de ago.
- 2 min de leitura
O homem que fabricava tempestades
propôs a ela um acordo: que atravessasse
a cidade em direção ao outro lado da dor,
enfrentando o que viesse, sem nunca olhar
pra trás. Se ela olhasse pra trás, ele a teria
pra sempre. Ela, cansada da luz que
piscava incessantemente, aceitou de
pronto. Não viu a traição no olhar dele, não
ouviu a malícia em sua voz, só pensou que
do outro lado da dor ela seria livre. E saiu
caminhando, munida de uma coragem que
até então desconhecia e lhe embrulhava o
estômago. Não deu dez passos quando o
dia virou noite e o homem que fabricava
tempestades criou a maior tormenta
jamais vista. A chuva carregava a cidade,
num rio caudaloso de lama e terror. Ela
tentou seguir, mas descobriu que o
embrulho no estômago era medo. Ela
tentou seguir, mas as árvores dançavam
revoltas ao seu redor e ela sentia que
jamais seria livre porque sequer seria viva.
Ela chorou. Ela olhou pra trás pedindo
socorro. Neste exato minuto a chuva
cessou, seguida de um silêncio
ensurdecedor. O homem que fabricava
tempestades sorria, vitorioso. Ele sabia
que ela desistiria - todas sempre desistiam.
Meses, anos, ela não sabia de certo
quanto tempo havia passado desde então.
Sabia que ia chover, uma chuva doentia e
escandalosa, todos os dias. Sabia que o
próximo dia seria igual ao anterior. Sabia
que o homem que fabricava tempestades
chegaria trazendo caos e devastando o
pouco que sobrou naquela terra de sal e
dor.
Mas naquele dia o homem que fabricava
tempestades não veio. Nem nos dias
seguintes. Suas vigilantes também não
estavam lá. A porta estava aberta dando
acesso a todos os cômodos da casa,
aqueles lugares misteriosos que a ela
nunca foram permitidos. Nos primeiros
dias ela não saiu do quarto, porém, já que
a única lembrança que tinha vívida em sua
memória era de uma traição cruel. Com o
passar do tempo ela conseguiu caminhar
pela casa, andar no jardim de flores
mortas, passar os fins de tarde na praia
onde nenhuma vida crescia. Sentiu-se livre
pela primeira vez, embora presa naquela
terra seca.
Meses se passaram, até que um dia ela
sentiu um cheiro totalmente
desconhecido. Um cheiro novo, e ela
andava colecionando cheiros porque
significa descoberta. Era um cheiro bom,
de vida se renovando, de vida crescendo
em algum lugar. Ela correu pro jardim e viu
a terra molhada. Ela sentiu a chuva pela
primeira vez, gota por gota, caindo em seu
rosto amedrontado. Ela olhou por todos os
lados, mas não encontrou o homem que
fabricava tempestades. E a chuva, a chuva
não era medonha. Era só uma chuva. Ela
correu até a praia, afundou os pés na areia,
viu o mar celebrar aquela chuva como
quem celebra a passagem de uma grande
dor. Então chuva era isso. Então isso era
não ter mais medo.
.png)


