Travessia para um sonho
- Raphaely Luz

- 21 de ago.
- 2 min de leitura
Tudo o que eu sempre quis na vida... foi sonhar.
Mas não me deixaram.
Me disseram que, por eu ser travesti, o sonho não me pertencia.
Que meu destino era viver à margem nos buracos, nos becos, nas esquinas.
Até me disseram que dos 35 não passaria , que ia morrer soropositiva, drogada, putrefata com todas as mazelas de uma dura vida, que para eles que me consomem é indigna.
Quanta hipocrisia.
Mas para mim esse vida, é força, é orgulho é resiliência é luta
Eu lutei. Eu luto e lutarei
Faço de cada passo uma travessia, não para fugir da margem,
mas para transformá-la.
Eu fiz e faço tudo para não está nesse lugar triste em que a sociedade tenta me colocar, é tão complicado assim me deixarem sonhar? Ao menos vocês podem me deixar respirar?
Me sufoco, sou feita de dor, de pele marcada, de passos firmes no asfalto quente da exclusão.
Sofrida, calejada, feia e esdrúxula aos olhos de quem não sabe ver.
Esse amor todo que está aqui a florescer mesmo com toda a dor me fazem ter para amargar
esse amor
Mas ainda assim...
busco, por entre as frestas da trama da minha vida,
um espaço pra tentar sonhar.
Mas há os ceifadores de sonhos.
Gente triste, vestida de poder, rica de dinheiro e pobre de humanidade.
Eles matam os sonhos de quem já nasceu para sobreviver com a esperança em ruínas.
Mas eu resisto.
Porque eu sei:
um dia, a margem vai se erguer.
E ocupará o centro.
E todos aqueles que, como eu, não puderam sonhar seja por ser negros, mulheres, PCD,
indígena , trans ,LGB
e os que ainda virão
vão poder sonhar em voz alta.
E realizar.
Porque esses ceifadores não irão ganhar.
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